AVALIAÇÕES EXTERNAS: DE QUE SERVEM AO PROFESSOR?

 

 Desde que as avaliações externas passaram a orientar as políticas públicas educacionais e serviram de base para bonificação de professores, o fazer docente em sala de aula tem sido constantemente enxertado de concepções, achismos e métodos para “melhorar” o nível de aprendizado dos seus alunos.

As avaliações externas produzem os indicadores de qualidade. Esses indicadores, como já discutimos e explicamos em vários outros textos aqui neste espaço, são elaborados a partir da relação existente entre o índice de fluxo (quantidade de alunos promovidos) e o índice de desempenho (medido a partir de uma prova). Tal relação entre essas duas variáveis resultam no indicador de qualidade do Sistema que é avaliado. Este método, portanto, pode ser aplicado em escala nacional (tal como o IDEB), regional (IDESP; IDERJ; IDEPE) ou internacional, como é o caso do PISA.

De qualquer forma, a receita é essa. A relação desempenho x fluxo gera o resultado esperado.

A discussão a que se propõe neste momento é sobre o exame que se aplica. Sem querer se alongar nesta discussão, já que o Prof. Luckesi o faz com muito mais propriedade que eu, é preciso diferenciar avaliação de exame. Via de regra, a avaliação é um conjunto de diferentes instrumentos que serve ao professor acompanhar sistematicamente e metodologicamente a aprendizagem do seu aluno. Já um exame, é (grosso modo) uma prova. Um único instrumento que vai me apresentar um único resultado.

Indicadores de qualidade: avaliação ou exame?

Ainda que muitos sistemas educacionais utilizem a palavra “avaliação”, entendemos que o que se aplicam aos alunos são exames pontuais, onde apresentam um retrato daquele momento. É importante deixar claro, que as “avaliações externas”, ou exames externos, como eu prefiro, têm como objetivo avaliar o sistema educacional, e não o aluno em si. Tal exame é confeccionado de acordo com uma matriz curricular, que reflete parte de um currículo do sistema de ensino, em que se aferem habilidades específicas.

O exame que é aplicado obedece a Teoria de Resposta ao Item (TRI). Tal teoria analisa como elemento central uma certa quantidade de questões (chamadas de itens) que analisa especificamente uma habilidade, dentro de um certo nível de dificuldade. As habilidades são estimadas a partir da probabilidade do educando acertar uma determinada questão dada o seu grau de habilidade.

O interessante desta forma de exame é que permite a comparação entre diferentes avaliações em um mesmo período de tempo e permite a comparação entre diferentes avaliações em períodos de tempo diferentes.

A partir da relação existente entre as habilidades e os níveis de dificuldade (proficiências), o sistema de ensino pode apresentar seus resultados para todo o sistema ou para a unidade escolar, tais como o exemplo a seguir: (só visível na publicação em PDF)

 

De posse de gráficos como este acima, o gestor público pode pensar em direcionar políticas públicas específicas para melhorar o nível de aprendizagem das crianças. Ao professor, cabe interpretar os números da sua unidade escolar e compreender as principais defasagens da sua unidade e utilizar os indicadores como uma ferramenta para nortear o seu trabalho, certo? Nem sempre!

 

O que fazer com os dados das avaliações externas?

 

É importante pensar que esses gráficos podem nos oferecer possibilidades de pensar didaticamente o “como” trabalhamos em sala de aula. Precisamos pensar e avaliar se nossa prática e se nossas formas de avaliações estão realmente contemplando as necessidades e expectativas de aprendizagem. Este é um dos fatores positivos que as avaliações externas podem nos oferecer, mas, sobre essa e outras possibilidades, pretendo me aprofundar em outros textos.

Um dos cuidados que devemos tomar, em relação aos resultados que esses exames nos apresentam, é sobre as habilidades que foram contempladas no exame aplicado. Lembre-se que este exame é confeccionado a partir de uma matriz curricular, baseada em competências e habilidades bem específicas e com diversos níveis de dificuldade. Ao tomar a avaliação aplicada como a totalidade da aprendizagem requerida, você estará reduzindo toda a sua prática docente ao que se pede naquele exame específico, ou seja, o “currículo mínimo” se torna o máximo.

Essa visão (infelizmente muito difundida Brasil adentro) é totalmente diferente da concepção que se deveria ter sobre as avaliações externas, que é a de que a avaliação externa avalia o conjunto daquilo que é ensinado nas escolas, e não o contrário. A escola não deve se articular em torno de uma avaliação para simplesmente gerar um indicador. Ao contrário, é o indicador que deve refletir aquilo que é trabalhado na escola.

Se a escola desenvolve atividades de leitura e interpretação de texto (aqui entra todas as disciplinas, sem qualquer forma de distinção), discussões coletivas, apresentações orais de trabalhos, pesquisas em diferentes mídias, diferentes produções textuais, comparação, análise, descrição e construção de tabelas, gráficos, mapas e qualquer outro tipo de informação imagética, é claro que independentemente de exame externo, ou não, os alunos vão saber manipular estes dados, com qualidade.

Por isso, é que se reafirma aqui que as avaliações externas podem ser ótimos instrumentos de análise e reflexão para professores e gestores, mas também podem se tornar grandes armadilhas que só trarão mais prejuízos aos alunos.

No próximo mês vamos retomar essa discussão.

 

Ivan Claudio Guedes

Geógrafo e Pedagogo

ivanclaudioguedes@gmail.com

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