Capitalismo e democracia na Europa

PARTE XX

O retorno às moedas nacionais (o dracma, no caso grego) é uma propaganda nacionalista extorsiva: a moeda reflete os interesses e as perspectivas sociais do Estado que a emite.  própria manifestação independente.

A desvalorização monetária provocaria uma carestia enorme para as massas populares, em condições de enorme desemprego e de uma economia em queda livre.[47] A saída do euro e da UE só não seria aventureira, e se situaria numa perspectiva superadora da crise, como parte de um horizonte internacionalista e socialista: a aliança de todos os trabalhadores europeus na luta pela unidade socialista da Europa, Rússia incluída.

O referendo provocou uma polarização e uma clarificação políticas. Em 2012, os sectários, em primeiro lugar o Partido Comunista da Grécia (KKE), rechaçaram a luta por um “governo de esquerda” quando o povo grego deu uma virada política maior ao romper com os partidos e burocracias tradicionais. Nessas condições, um governo de Syriza e outros partidos reformistas aceleraria o processo político na Grécia.

Em junho de 2015, o Partido Comunista novamente chamou à abstenção no referendo, posto que seus termos autorizariam Syriza e seu aliado direitista no governo a retomar às negociações com a troïka, o que era um fato. Mas como desenvolver a experiência do povo até o final em relação a Syriza sem impulsionar a mobilização de massas, com seu eixo no referendo e no não?

O KKE celebrou uma reunião na Praça Syntagma. Seu secretário geral, Dimitris Koutsoumbas, advogou pelo voto nulo no referendo, mediante o uso de uma papeleta especial impressa e distribuída pelo KKE, que serviria como manifestação de protesto: “NÃO tanto ao governo de Syriza como aos Memorandos da UE”; “uma alienação da realidade de uma burocracia esclerosada, que põe sua própria conservação por cima dos interesses de classe dos trabalhadores, e ao serviço do sistema capitalista em crise, em condições em que os orquestradores da histérica campanha em favor da UE revivem as velhas consignas dos anticomunistas e a propaganda imperialista durante a guerra civil grega da década de 1940. Os burocratas dirigentes do KKE desacreditam o comunismo. Antarsya, coalizão de umas vinte organizações centristas, junto a uma pequena frente nacionalista chamada MAS, fez sua própria reunião frente ao antigo prédio da Universidade de Atenas, no mesmo local em que o EEK celebrou sua própria manifestação independente. Pediram votar NÃO, criticando, ao mesmo tempo Syriza com uma retórica semelhante à do KKE, exigindo romper com a UE e o euro e o retorno à dracma, mas sem romper com o capitalismo”.

Se o não ganhasse no referendo, Grécia “não teria lugar na zona do euro”, alertaram (ameaçaram) os porta-vozes do Eurogrupo. O não confrontou aberta e frontalmente essa perspectiva. A Grécia sofrera dois “resgates” da troïka, sete pacotes de austeridade e de “reformas”, de fevereiro de 2010 a julho de 2013, 24 trimestres consecutivos de crescimento negativo, totalizando um retrocesso econômico de 26%. Os efeitos sociais foram catastróficos, inauditos em tempo de paz.

A taxa de desemprego chegou a 27,5%; entre os jovens baixou só um pouco do seu pico de 65% devido a uma ligeira retomada no setor turístico. 3,9 milhões de pessoas, mais de um terço da população, vive abaixo do limiar da pobreza. O rendimento nacional per capita baixou de 25.474 dólares em 2008 para 20.744 dólares em 2013.

Os salários foram cortados em 27,4% em média, de uma forma regressiva, sendo mais severos os cortes na metade inferior da tabela. As despesas com a educação e com a saúde baixaram em 25%. Três milhões de pessoas, um quarto da população, não tem qualquer direito a assistência médica.

Enquanto isso, a dívida pública grega – apesar do cancelamento parcial em março de 2012, no segundo “resgate” – aumentou em termos absolutos de 263,28 bilhões de euros em 2008 para 316,97 bilhões de euros em 2014, passando de 105,4% para 174,9% do PIB.

A distribuição do orçamento da Grécia mostra a predominância dos gastos com a dívida sobre todos os demais gastos estatais: os gastos com o pagamento de empréstimos, outras obrigações de dívida, juros e outros custos absorvem 56% do orçamento estatal.

No meio da mobilização pelo referendo, o governo de Alexis Tsipras decretou a restrição de saques em caixas eletrônicos, um corralito que afetou a vida cotidiana de trabalhadores e aposentados, limitando a retirada de dinheiro a € 60, bem como ordenando o fechamento de bancos e mercados até o dia 7 de julho.

 Houve uma feroz campanha do campo político do sim, com quase todos os meios de comunicação à sua disposição, e respaldada pelos líderes da zona do euro, que utilizaram toda sua força política e financeira para exercer pressão sobre o eleitorado. Jornais, revistas e TVs se posicionaram quase todos em favor do sim, da aceitação do pacote de ajuste da troïka.

Os líderes das instituições europeias e do FMI empreenderam uma campanha de ameaças e chantagens, advogando abertamente pela mudança de regime e pelo sim. O Banco Central Europeu (BCE) obrigou aos bancos a fechar durante a campanha do referendo.

O Financial Times publicou uma história falsa de que os bancos gregos iriam aplicar uma redução de 30% nos depósitos de mais de oito mil euros. Os patrões gregos usaram todo tipo de táticas , incluindo a intimidação direta aos trabalhadores, para que votassem pelo sim, ameaçando reter salários, demissões, etc. De fato, foi uma tentativa de golpe institucional. Os líderes da zona do euro não se molestaram em ocultar o fato de que seu objetivo era o de utilizar o que esperavam seria um voto pelo sim para forçar a demissão do governo de Syriza e substituí-lo por um “governo de unidade nacional” submisso a eles e composto por tecnocratas.

Nessas condições, diante (e apesar) da propaganda da direita que uniu a abertura dos caixas eletrônicos com o sim, com o 61,3% dos votos pelo não no referendo do domingo 5 de julho de 2015, a população grega mostrou sua indignação contra a política da União Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu, o privilégio dado aos lucros dos grandes bancos, os ajustes que cortaram os salários, as pensões e os empregos, em detrimento das condições de vida da população e da classe trabalhadora.

O EEK fez campanha pelo não durante todo o referendo, apesar de não fazer parte do governo, sabendo que o não abriria uma nova fase na luta das massas contra a opressão da União Europeia. O resultado do referendo foi uma derrota dos banqueiros e dos capitalistas da zona do euro. As previsões de que o sim teria uma base nas zonas rurais se mostrou equivocada.

A revista Public Issue publicou uma análise desagregada do voto não por idade, sexo, ocupação. Por grupos de idade, ficou claro que foi a juventude que lhe deu a vitória.

70,9% dos trabalhadores do setor público e 71,3% dos trabalhadores do setor privado, bem como 72.9% dos desempregados, votaram não; médicos, advogados e engenheiros votaram majoritariamente pelo sim, embora por uma margem pequena.

Também votaram não 85,2% dos estudantes.

 A votação foi claramente de esquerda, com um apoio ao não de 91% dos que se declaram de esquerda e de 73,6% dos que se consideram de centro-esquerda. Entre os que votaram por Syriza em 25 de janeiro, 87,3% votaram não, quase tanto quanto os eleitores do Partido Comunista, o KKE (86,9%) apesar da linha do partido de votar nulo.

 CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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