ACTUALIDADE DA FILOSOFIA PORTUGUESA

Miguel Bruno Duarte

Raríssimos são, hoje, os que, com frontalidade e coragem, revelam compreender que um abismo sem fundo existe entre o saber parasitário das instituições universitárias e o pensamento vivo, espontâneo e criador de filósofos portugueses. Uma coisa são apenas duplicados do que no passado foi o pensamento vivo e especulativo de indivíduos espiritualmente superiores, outra coisa é, na actualização prospectiva da tradição filosófica nacional, o aparecimento de novos e inesperados pensadores da cultura nacional-humana. Por outras palavras, todo e qualquer carreirista universitário pago para produzir erudição livresca e quase sempre segundo os ditames ideológicos conformes à cultura dominante – no presente caso o da cultura socialista -, não é nem deverá ser confundido com o que a tradição clássica, baseada no modelo da sabedoria socrática, entendia ou caracterizava por filósofo.

A filosofia portuguesa não é a filosofia de um «grupo», como dizem os seus detractores. Dizê-lo simplesmente assim significa, uma vez desaparecido o alegado «grupo», poder dar finalmente por finda a filosofia de um povo que já muitos consideram como tendo «saltado para fora do tempo». Eis então, rigorosamente, o ponto da questão: o movimento da filosofia portuguesa, no que o distingue de outros movimentos culturais, científicos e literários, está no facto incontornável de ter assumido a tradição filosófica pátria contanto que despida de tudo o que, erudita e monograficamente, grassa nas academias e nas universidades ao sabor do neoglobalismo triunfante, nomeadamente sob a forma do positivismo francês, alemão e anglo-saxónico.
Deste modo se explica, aliás, que Orlando Vitorino repudiasse o suposto carácter «grupal» da filosofia portuguesa, não obstante a sua manifestação na concreta e situada tertúlia de Álvaro Ribeiro e José Marinho, irmãos espirituais em Leonardo Coimbra. Ou seja: a filosofia portuguesa não só irradiou a outras personalidades das mais diversas origens, ideários e matizes ideológicos como Almada Negreiros, Jorge de Sena e José Régio, como também lançou raízes mais fundas, singulares e originais que hoje permanecem e prometem doravante constituir a filosofia de todos os portugueses que pensam. Logo, como escrevera Orlando Vitorino, a filosofia portuguesa é um dos acontecimentos mais importantes da história de Portugal, afirmação que só estranhará quem não puder compreender a afirmação de N. Hartman de que os Discursos à Nação Alemã, de Fichte, foram um dos acontecimentos mais importantes da história universal.

Ora, a máquina universitária, dominada por inúmeros grupos de activistas – os mesmos que controlam ou tendem a controlar toda a acção cultural do Estado e são, além do mais, os queridinhos da Comunicação Social – essa, dizíamos nós, não pode nem quer reconhecer e perceber tão abissal diferença. Daí que surjam criaturas que, sob os efeitos contraditórios e estonteantes de uma propaganda gramsciana, declarem a morte alheia de tudo o que não compreendem, seja de Portugal seja da filosofia portuguesa.

Na verdade, tais criaturas, que nem sempre falam em nome próprio, deixam, por vezes, ressaltar ainda mais a sua burrice vazia sobre o que espiritualmente as transcende: o pensamento autêntico que não corre pelas vias consagradas da classe política, jornalística e universitária do nosso tempo. Um pensamento, para mais, que não é apanágio de técnicas e metodologias universitárias de pura e redutora análise linguística sobre a letra morta de textos manuscritos ou impressos, brochados ou encadernados. Tal não significa que a paleografia não seja uma actividade auxiliar ou necessária, mas tão-somente que ela ainda não é pensamento nos termos de um real e profundo movimento gerador de alta cultura.

Pinharanda Gomes é, na filosofia portuguesa, o exemplo paradigmático do obreiro paleográfico que, pairando acima das citações ornamentais e corporativas do mais insípido academismo, sabe decifrar, comentar e publicar documentos colhidos e investigados em arquivos e bibliotecas que nem sempre parecem estar ao serviço do património científico, artístico e filosófico português. Por isso, de muitos historiadores e paleógrafos existentes entre nós, ele é, sem dúvida, o primeiro e o mais abalizado de todos, pois percebe e compreende onde mora o valor de um paciente e laborioso trabalho que, como o seu, visa o «fundamento» sumológico das verdades eternas e principiais de uma filosofia da história norteada por e para Portugueses. Como tal, Pinharanda Gomes vale, no mínimo, mil universitários pela sua obra verdadeiramente monumental, e tanto mais valiosa porquanto inspirada no pensamento de Álvaro Ribeiro e José Marinho que foram, por certo, filósofos que promoveram aulas abertas e gratuitas de filosofia, coisa, aliás, impensável em "profissionais" pagos para dissertar no meio universitário.
Na realidade, foram esses mesmos "profissionais" parasitários do pensamento extra-universitário que, por entre as vestes dissimuladas da “Filosofia em Portugal”, jamais admitiram a existência da filosofia portuguesa por a considerarem, como refere Pinharanda Gomes, uma ideologia já feita para então recusá-la liminarmente. E a ironia perpassa pelo facto desses mesmos «profissionais» do intelecto alheio não terem o mesmo sentido supostamente crítico quando são pagos para ensinar as mais dogmáticas e dissimuladas ideologias que fazem da corporação universitária o maior foco de positivismo e materialismo do nosso tempo. De nada vale, portanto, a solenidade dos congressos, dos debates e das conferências se estas não visarem uma finalidade superior à mera ruminação do saber já feito e vertido em segunda, terceira ou quarta mão, como, aliás, o reconhece Afonso Botelho[...].

De facto, a filosofia portuguesa abre-nos as portas para a compreensão una e omnímoda, como diria o próprio José Marinho, do quanto podem e estão efectivamente minadas, sob o ponto de vista do ideologismo cientista, as instituições jurídicas, políticas e culturais da actualidade. De resto, essa coisificação saturnina, que Marinho designara por cisão extrema, teve aspectos verdadeiramente precursores no domínio do positivismo invasor, no momento em que este, a partir de meados do século XIX, se infiltrara na superficialidade cultural de medíocre mas nefasta aclimação no extremo ocidental ibérico. Daí, pois, ter Álvaro Ribeiro escrito para José Marinho o quanto considerava, não os marxistas, mas os positivistas como «os maiores inimigos do pensamento português» [...].

Presentemente, o Brasil, correndo sob a divisa positivista da ordem e do progresso, está sendo, muito para além disso, uma plataforma de coordenação revolucionária para a implantação do neocomunismo no continente sul-americano. Prova disso é a resistência de alguns ilustres brasileiros que, como Olavo de Carvalho, se batem heróica e frontalmente por um Brasil que rejeite, denuncie e combata o terrorismo cubano e certas e bem identificadas organizações revolucionárias como o Foro de São Paulo, as FARC (6) e o MIR chileno (7). E tanto mais o fazem quando essa resistência se torna indispensável contra o establishment esquerdista imposto a todos os quadrantes da vida político-económica, jornalística e académica.

Por isso, desde já nos consideramos naturalmente solidários com nossos irmãos de Vera Cruz em nome de uma língua e de uma Pátria que nos é, não obstante a cisão histórica na «coisa pública», bem como na origem e na acção de dois Estados diferentes, efectivamente comum. Na verdade, o abortismo ou a “cultura de morte” - na inequívoca expressão de João Paulo II -, a "liberalização das drogas", o multiculturalismo, o alarmismo ecológico, o feminismo, o “casamento” gay, enfim, tudo o que o socialismo progressista nos quer agora impor, encontrará da nossa parte a mais viva hostilidade. De resto, é um facto indesmentível de que a desproporção entre o esquerdismo - constituído por organizações sectárias e partidárias para destruir a Pátria, a Nação e a República -, e a direita abstracta e paradoxalmente inexistente, não passa, por sua vez, de um artificio de engenharia social que, além do mais, contribui sobremodo para o triunfo da Nova Ordem Mundial.

Também é verdade que a filosofia portuguesa, entendida nas suas mais distintas figuras de proa, como Álvaro Ribeiro e José Marinho, não se comprometeram, como Orlando Vitorino, a encarar de frente a táctica gramsciana enquanto via de instauração do comunismo no ensino e na cultura. Nesse sentido, brasileiros como Olavo de Carvalho estão, em muitos aspectos, bem mais preparados do que a massa amorfa e apática dos intelectuais portugueses, que já nem sequer olham de frente para a realidade que os tolhe e absorve num redemoinho de tagarelice oca e vazia nas academias e nos concentrados órgãos de comunicação de massas. Nisto, até os epígonos da filosofia portuguesa, alguns deles já em órbita universitária, quedam perdidos por entre auto-elogios, lamúrias e cultos de personalidade.

Felizmente, a sabedoria, simbolicamente considerada, é mulher que prefere antes de mais os que a procuram e por ela se batem na melhor tradição socrática. Nós nem queremos imaginar, entretanto, o que seja o naufrágio do estudante universitário lançado às turvas águas da filosofia estrangeira, venha ela na forma de marxismo, pragmatismo, desconstrucionismo, ou ainda na forma de kantismo, nietzscheanismo, estruturalismo, heideggerianismo, e todos os demais ismos. Contudo, permanecerá sempre uma bóia de salvação lançada pela filosofia portuguesa, cujo horizonte superno ora atravessa as implicações últimas da visão unívoca e mística de José Marinho, ora atende ao aristotelismo modal e teleológico de Álvaro Ribeiro.

Assim, cabe-nos dizer que o movimento da filosofia portuguesa, no que verdadeira e espiritualmente significa, não deve, quanto a nós, ser equiparado a outros movimentos manifestamente cívicos, literários, políticos ou outros, como fazem certos universitários que só vêem, em termos lineares, o antes e o depois, histórica ou sociologicamente considerados. Se tudo fosse pautado nos tais termos lineares do antes e depois, permaneceria apenas a imagem temporal do que incessantemente se nega, altera e corrompe, onde nada por si mesmo subsiste ou permanece. Ora, entendida a filosofia portuguesa, não como o pensamento do já pensado, mas como o pensamento em acto, é o que nos permite dizer hoje, como ontem disse Álvaro Ribeiro, e amanhã o dirão outros ainda, que a interpretação portuguesa da filosofia de Aristóteles é superior à interpretação alemã.

*Mantido texto original em Português de Portugal.

 

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