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DENTRO DE MIM

Debruçado na amurada de meu navio, vejo a brancura das águas revoltas a rondar os abismos da popa. Estendo meu olhar e sigo a esteira de espumas, o rastro que se afasta do navio até desmanchar-se junto ao céu deitado sobre o mar, no horizonte, à beira do infinito.

Ao contrário do ilusório movimento das águas, é o navio que se movimenta, tal qual eu me movo a navegar no tempo que permanece parado enquanto eu passo. Todos nós passamos.

No movimento de minha vida o tempo vivido aparenta seguir para trás, o chão parece andar debaixo do meu corpo, e os cenários à minha frente ilusoriamente vêm em minha direção. Passado, presente e futuro são momentos imaginários do tempo que, em verdade, permanece inerte e estático, e se limita, imóvel, a contemplar a breve viagem de minha vida, fitando-me com seus olhos postados em três dimensões. Os olhos parados, do tempo, observam minhas contínuas aproximações ao futuro, assistem às minhas chegadas fugidias ao presente, e, finalmente, descortinam as imagens de meus distanciamentos do passado.

Às vezes, meus pensamentos entram em conflito, e contrapõem certezas e dúvidas em minha mente.

Por isso, já cheguei a acreditar que carrego o tempo comigo, como na verdade/mentira de Carlos Drummond de Andrade, em verso sobre a transposição dos Anos:

“É dentro de você

que o Ano Novo

cochila e espera,

desde sempre”.

Não aguento suportar sobre meus ombros o peso de tão grave responsabilidade. Rejeito carregar em meu restrito e frágil peito a ampla dimensão de cada misterioso, imprevisível e incerto Ano Novo, pronto para despertar de seus cochilos e esperas, num berço invadido dentro de mim.

Já tentei, é verdade, mudar o mundo e, segundo minha ingênua crença, para melhor. Mas, o mundo não melhorou, e eu certamente piorei, não apenas por ter sido impotente quando me dispus a mudá-lo, mas, também, pela degeneração natural de meus atributos mentais, morais e intelectuais.

Não. Não me converti à devassidão, à vadiagem ideológica, à doutrinação dos diabos, nem ao ócio, paterno de todos os vícios. Apenas cansei de tentar promover mudanças que nem mesmo o Criador anima-se a realizar, salvo quando cada um resolve enfrentar a difícil tarefa de mudar-se a si mesmo, e nesse caso, a ajuda deve ser negociada nas intimidades espirituais.

Os votos de um bom Ano Novo, proferidos pelo coração dos seres, ou apenas ditos da boca pra fora, quase sempre têm como tema a satisfação de necessidades ou conveniências individuais, como na estrofe da musiquinha onde desponta a importância de haver “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar... e vender(!)”.

Amor, paz, saúde, felicidade, prosperidade, sucesso, riqueza, e outras tantas coisas, podem estar ali, no pulo sobre as ondas, nas preces contritas, na porção de lentilhas, na explosão dos rojões, nos nacos de suínos que fuçam pra frente, nada de peru que cisca pra trás, e em tudo quanto a fé, a tradição, a superstição, ou as manias levam nas asas das esperanças que ainda não morreram.

Mas esses votos ou intenções endereçados, ou recebidos, não podem resumir-se num palavrório rotineiro diante do próximo calendário, com um sentido individualista, muitas vezes egoísta e egocêntrico.

O verdadeiro ano novo pode, sim, iniciar-se num dia qualquer, de qualquer mês, ontem, agora, amanhã, ou sei lá quando, desde que, em cada minuto, que pode ser fatal, eu desperte um sadio Ano Novo adormecido, que cochila e espera, desde sempre, dentro de mim.

Vicente Cascione